Todo Nazareth - Obras Completas

Lançado pela ÁguaForte, especializada em projetos especiais, a coleção reúne toda a obra  do compositor brasileiro em edição especial com 06 volumes - Polcas, Valsas, Peças Diversas e Tangos (3 volumes). Com um trabalho esmerado de pesquisa e revisão musicológica, pretende-se assim, pela primeira vez, apresentar o trabalho completo de Ernesto Nazareth.

 

 

SOBRE A COLEÇÃO

 

"A obra de Ernesto Nazareth é reveladora para compreendermos a complexidade da música popular urbana no Brasil, no momento em que ela se configurava. Toda pensada para o piano, carrega em si o processo de sincopação da polca européia e o contato entre a música de salão e o repertório da música de concerto, num contexto de fixação de novos gêneros dançantes.

A maior parte de suas peças se faz na recorrência de dança: a polca, a valsa, o choro, o maxixe, o schottisch e, sobretudo, o tango. Mas, para além da sincopação predominante, a escrita de Nazareth carrega um tratamento pianístico, harmônico, e textural único, não à toa criando peças clássicas da música brasileira, como Odeon e Brejeiro. (continue lendo...)

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 Partituras 

TANGOS II

O futurista

Odeon

TANGOS III

Rayon d'or

Tenebroso

FICHA TÉCNICA

 

Título: Todo Nazareth – Obras Completas

Autor: Ernesto Nazareth

Organização: Thiago Cury e Cacá Machado

Direção editorial: Thiago Cury

Consultoria e catálogo: Luiz Antonio de Almeida

Produção executiva: Joana Cury

Projeto gráfico: Paulo Vidal de Castro e Thais Vilanova

Edição musical: Maurício De Bonis, Marcus Siqueira, Thomas Hansen, Daniel Bondaczuk de C. Lobo

Layout musical: Maurício De Bonis, Thiago Cury, Thomas Hansen

Revisão musicológica: Maurício de Bonis, Thiago Cury, Cacá Machado

Tradução: Alexandre Barbosa de Souza

 

A edição

Todo Nazareth – obras completas foi organizado por gêneros e dividido em 6 álbuns: Polcas, Tangos (em 3 volumes), Valsas, e um álbum contendo as peças de Concerto e as peças de danças menos recorrentes em sua obra, como Quadrilhas, Schottischs e Fox-trots.

A edição conta com iconografia, cronologia e catálogo da obra do compositor estabelecido a partir dos acervos que guardaram suas partituras autógrafas e editadas ao longo de quase um século. Para complementar a edição impressa, o leitor poderá encontrar maiores informações sobre a obra e vida de Ernesto Nazareth no site www.ernestonazareth.com.

 

As Fontes

Em 1963 a Fundação Biblioteca Nacional organizou uma “exposição comemorativa do centenário de Ernesto Nazareth”, sob a direção de Mercedes Reis Pequeno, chefe da seção de música. O resultado da exposição foi a criação do acervo e do catálogo do compositor, formado por partituras impressas, manuscritos, discografia, hemeroteca, bibliografia, iconografia e documentos pessoais, a partir das coleções de Eulina de Nazareth (filha do compositor), de Andrade Muricy, de Mozart Araújo, do Arquivo Musical Almirante e da Editora Arthur Napoleão. Hoje em dia este acervo localiza-se na Divisão de Música e Arquivo Sonoro – DIMAS – da Biblioteca Nacional.

Durante a década de 1980, Luiz Antônio de Almeida iniciou uma pesquisa sobre a vida de Ernesto Nazareth que o levou a aproximar-se de seu último descendente vivo, Dona Julita Nazareth Siston, sua sobrinha, herdeira do patrimônio que restou do compositor: fotografias, chapas originais de impressão de partituras, cadernos com anotações pessoais, cartas e acervo pessoal de partituras. Estes documentos foram doados para o pesquisador, que, em 2004, deixou parte deles sob a guarda do Instituto Moreira Salles (IMS). Por fim, em 2009, o trabalho coordenado por Rosana Lanzelotte disponibilizou digitalmente as peças do compositor.  

 

A obra de Ernesto Nazareth está dividida, portanto, entre três acervos: 1) Acervo DIMAS; 2) Acervo Luiz Antônio de Almeida e 3) Acervo IMS. Foi a partir destas fontes que reunimos e definimos as 209 peças integrais que formam as obras completas de Ernesto Nazareth.

As partituras destes acervos são manuscritos autógrafos do autor, manuscritos autógrafos por Diniz de Nazareth (filho do compositor) e partituras editadas até a década de 1960 por diferentes empresas como Casa Mozart, Eduardo Souto e Cia., E. Bevilacqua & Cia, Sampaio Araújo & Cia., Arthur Napoleão & Cia., Viúva Filippone & Filha, entre outras. No acervo DIMAS, todos os manuscritos autógrafos foram microfilmados e parte deles digitalizados durante a década de 1990, num programa interrompido de restauração de acervos.

Não constam desta edição impressa as peças cujos acervos apresentaram somente fragmentos, esboços ou anotações, como Beijinho de moça, De tarde (música dramática), Fraternidade (Hino infantil). Contudo, estes fragmentos encontram-se disponíveis no site do projeto.

 

O Critério editorial

A definição e o limite entre os gêneros na música popular urbana do início do século XX no Brasil é um tema amplo, ainda em aberto. Há que se levar em conta o ambiente de formação de um mercado editorial que se estabelecia ao mesmo tempo em que diferentes variantes de danças se fixavam. Cada qual com suas características musicais e socioculturais. É neste contexto que Ernesto Nazareth, em sua ambição de um compositor que desejava ser reconhecido pela elite, nomeou suas peças sincopadas de tangos. Já não eram mais polcas européias de salão, porque foram contaminadas irreversivelmente pelo sacolejo da síncopa, mas também não eram maxixes, como aqueles praticados nos subúrbios e associados genericamente ao nosso passado escravista. Para Nazareth eram tangos simplesmente. Para nós a questão é mais complexa.

Por esta razão, nesta edição adotamos o critério estrutural para a divisão dos gêneros, levando-se em consideração os gestuais característicos principais de cada peça. O leitor verá que existe um apêndice em alguns álbuns. Nos volumes relativos aos Tangos,  encontram-se peças que foram editadas com indicações de gênero diferentes do tema do álbum. Crises em penca!..., por exemplo, samba carnavalesco composto em 1930, está alocado no apêndice do primeiro volume dos Tangos. O motivo é que esta peça do ponto de vista estrutural e gestual corresponde ao que o compositor nomeou de tango. Talvez por sugestão de seus editores, que queriam divulgar uma peça sob um gênero que despontava como novidade, ou talvez por desejo próprio, Nazareth batizou Crises em penca!... como samba. Para o nosso critério esta peça situa-se no apêndice do primeiro volume dos Tangos e não no álbum que contempla a diversidade de gêneros.

 

A Padronização e a revisão

O trabalho de padronização da obra de Ernesto Nazareth é revelador do lugar ambíguo que ocupa o compositor entre as tradições da música popular e da música de concerto no Brasil do início do século XX. Se por um lado Nazareth escrevia suas partituras com domínio da tradição de notação musical, por outro, a rapidez e a voracidade do mercado editorial popular a que se destinavam suas peças de dança, por vocação, muitas vezes resultavam em edições pouco rigorosas, com excessos, por exemplo, de articulações. Indicação, na realidade, de uma moda interpretativa, construída a partir dos hábitos de um mercado editorial brasileiro em formação moldado pelo gosto romântico da segunda metade do século XIX.

Foi com esse tipo de questões que nos deparamos para a padronização desta edição, sobretudo nas peças de dança (polcas, valsas, tangos e suas variantes).

O aspecto formal das peças de dança em sua grande maioria segue a estrutura A-B-A-C(Trio)-A. Praticamente a totalidade das polcas, o primeiro gênero escrito por Nazareth, segue esse modelo formal. Já entre os tangos, mesmo que mais da metade das peças siga estritamente esse modelo, chamam a atenção as experiências com diversas variantes de montagem formal. As mais elaboradas abrangem desde a criação de novas seções intermediárias (como em Batuque, Floraux, Ramirinho ou Retumbante e também nas polcas Você bem sabe! e Zizinha) até construções mais próximas ao rondó (como Bambino, Desengonçado e especialmente Digo).

Os intérpretes da obra nazarethiana ao longo do século XX muitas vezes alteraram esta estrutura básica pelas mais diferentes razões estéticas e/ou práticas de execução vindas do universo da música popular (como, por exemplo, os improvisos espontâneos das rodas de choros). Portanto, foi realizada uma revisão criteriosa da divisão formal optando-se por uma padronização que preserva na partitura a estrutura essencial das formas de dança.

No campo das articulações, ornamentos e expressões retiramos os excessos de informação, provenientes ao que tudo indica de critérios editoriais contaminados pelo gosto romântico, deixando a partitura mais enxuta para que o intérprete imprima as suas escolhas.

Nas canções e hinos escritos por Nazareth houve ajustes na estrutura melódica para adequação da prosódia e da linha vocal. Por fim, foi realizada a atualização ortográfica das letras, títulos e dedicatórias.